‘Não tem sossego, qualquer barulho já acha que é a terra caindo’: avanço de voçoroca isola moradores em Rio Largo

“A gente não tem sossego, não tem paz. Qualquer barulho a gente já pula da cama achando que é a terra caindo”, relata, preocupada, Viviane Justino, de 38 anos, moradora do bairro Mata do Rolo, em Rio Largo, na Região Metropolitana de Maceió, onde a voçoroca já faz parte da rotina e impõe um estado permanente de alerta dentro de casa.

Na região, o tempo deixou de ser medido pelo relógio e passou a ser marcado pela saturação do solo. Na última quinta-feira (23), o gesto coletivo de olhar para o céu revelava uma angústia pragmática: o chuvisco persistente sobre a terra vermelha indicava que a erosão seguia avançando, escavando por dentro e ampliando o risco ao redor.

Essa percepção cotidiana encontra respaldo no diagnóstico técnico mais recente. Levantamento da Defesa Civil de Maceió, divulgado na quarta-feira (22), aponta que a voçoroca avançou de forma significativa e já representa risco direto à população e à infraestrutura urbana.

Há residências a menos de oito metros da borda da área afetada — uma proximidade que, na prática, explica o medo relatado por Viviane e outros moradores. A chuva, neste período de quadra chuvosa, perdeu o caráter de renovação para se tornar uma métrica de perigo. 

Para quem observa o horizonte da Mata do Rolo, cada nuvem carregada é interpretada como mais pressão sobre um solo já fragilizado. O chuvisco que caía durante a reportagem não era apenas água; era peso sobre uma estrutura que já não suporta a própria massa.

O cheiro de barro úmido, que em outras regiões de Alagoas remete à fartura da roça, ali tem outro significado, isto é, sinal de que a terra continua cedendo — muitas vezes antes mesmo de qualquer sinal visível, primeiro no som que interrompe a madrugada, depois no avanço silencioso da cratera.

O caso da Mata do Rolo é um recorte de um problema mais amplo em Alagoas. Pesquisadores da Ufal identificaram 23 voçorocas em situação crítica no estado. De Maceió a Pilar, o solo sedimentar alagoano apresenta processos erosivos semelhantes, com diferentes níveis de avanço e risco.

Fonte: Cada Minuto

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